Especialista aponta pontos críticos que podem impactar a sustentabilidade do negócio e reforça a importância da análise prévia, transparência e maturidade na tomada de decisão no franchising
O mercado de franquias segue como uma das principais portas de entrada para empreendedores que buscam investir em modelos de negócio estruturados. No entanto, a decisão de ingressar em uma rede exige análise técnica, leitura de riscos e compreensão clara das responsabilidades entre franqueadora e franqueado.
Quando a relação não é conduzida com transparência, práticas como ausência de informação, promessas financeiras irreais e falhas de suporte podem comprometer a operação e gerar desequilíbrios contratuais e financeiros.
Para o advogado especializado em franchising, Ralph Fontes, sócio-fundador da Fontes & Advogados Associados, muitas dessas situações poderiam ser evitadas com maior clareza na comunicação e respeito às obrigações previstas na legislação do setor.
A seguir, o especialista lista sete pontos de atenção que devem ser considerados por empreendedores antes de investir em uma franquia.
1. Falta de transparência na Circular de Oferta de Franquia (COF)
A Circular de Oferta de Franquia é o principal documento de análise pré-contratual no franchising. Ela deve apresentar de forma clara informações sobre a rede, obrigações, taxas, estrutura de suporte, fornecedores, histórico da marca e relação de franqueados.
Quando há omissão de dados relevantes — como custos, riscos ou histórico da operação — o investidor pode tomar decisões sem ter uma visão real do negócio.
2. Promessas de faturamento sem base comprovada
Um dos principais pontos de atenção no setor é a apresentação de projeções financeiras sem embasamento técnico.
Franquia não representa retorno garantido. Trata-se de uma atividade empresarial, sujeita a variáveis como gestão, localização, mercado e capital de giro.
Projeções devem ser apresentadas com critérios claros e sempre acompanhadas de premissas realistas.
3. Cobranças não previstas ou pouco detalhadas
Taxas como royalties, fundo de marketing, sistemas e treinamentos precisam estar claramente definidas no contrato e na COF.
Cobranças adicionais, quando não previstas ou mal explicadas, geram insegurança na relação e podem comprometer a previsibilidade financeira do franqueado.
4. Uso de fornecedores obrigatórios sem justificativa técnica
A padronização da rede pode justificar a indicação de fornecedores, especialmente para manutenção de qualidade e identidade da marca.
No entanto, quando a imposição ocorre sem transparência ou com preços desalinhados ao mercado, há impacto direto na margem do franqueado e no equilíbrio da operação.
5. Mudanças unilaterais sem planejamento de transição
A evolução da rede é natural, mas alterações em produtos, sistemas ou padrões operacionais precisam ser comunicadas e implementadas com prazos adequados.
Mudanças abruptas podem gerar custos inesperados e comprometer a previsibilidade do negócio.
6. Expansão desorganizada e risco de canibalização
O crescimento da rede exige planejamento territorial.
A abertura de unidades muito próximas ou sem análise de mercado pode gerar concorrência entre franqueados da própria rede, reduzindo faturamento e prejudicando a sustentabilidade do ecossistema.
7. Falhas no suporte prometido ao franqueado
O suporte é um dos principais pilares da decisão de compra de uma franquia.
Quando a estrutura prometida não é entregue — seja em treinamento, acompanhamento ou orientação operacional — o franqueado pode ficar sem apoio adequado para a gestão do negócio.
A importância da análise antes de optar por uma franquia
Antes de investir, é essencial que o empreendedor reúna e analise documentos, especialmente a COF, contrato e histórico da rede.
A comparação entre o que foi prometido e o que é entregue na prática é um dos principais critérios para decisões mais seguras no franchising.
Conversar com franqueados atuais e antigos também é uma etapa fundamental para compreender a realidade da operação.
Redes bem estruturadas tendem a se beneficiar diretamente da transparência e da previsibilidade.
Quando há clareza nas regras, coerência nas informações e consistência no suporte, a relação entre franqueadora e franqueado se fortalece — reduzindo conflitos e aumentando a sustentabilidade do negócio.
No franchising, mais do que expansão, o fator decisivo para o crescimento saudável é a qualidade da governança e da informação compartilhada entre as partes.

