Consultoria destaca estratégia, gestão de riscos, ética, capacitação e cultura organizacional como pilares para a supervisão da Inteligência Artificial nas empresas
A Inteligência Artificial consolidou espaço na agenda estratégica das empresas brasileiras em 2026 e passou a demandar uma atuação mais ativa dos conselhos de administração. Nesse contexto, a consultoria global de gestão organizacional Korn Ferry apresenta cinco dimensões que considera essenciais para orientar a governança da tecnologia, com foco na supervisão dos investimentos, dos riscos e dos impactos da IA sobre os negócios.
Para Jorge Maluf, líder da prática de serviços para conselhos da Korn Ferry, a adoção da Inteligência Artificial exige dos conselheiros uma participação mais próxima das decisões estratégicas das organizações. “É fundamental que os conselheiros compreendam a complexidade da IA para orientar as companhias. Eles precisam ter uma participação ativa, defendendo a alocação estratégica de capital em decisões complexas sobre quanto, onde e quando investir”, afirma.
A consultoria observa que o avanço da IA também acompanha a evolução do papel dos conselhos de administração no país. De acordo com a pesquisa anual Práticas de Governança e Remuneração de Conselhos, realizada pela Korn Ferry, seis em cada dez conselheiros já atuam de forma independente, sendo que alguns recebem remuneração anual superior a R$ 1 milhão.
Cinco dimensões para a governança da IA
A Korn Ferry propõe uma autoavaliação da prontidão dos conselhos para lidar com a Inteligência Artificial, estruturada em cinco dimensões consideradas prioritárias.
A primeira delas é o alinhamento estratégico. Nesse aspecto, o conselho deve compreender como a IA está inserida na estratégia da organização, avaliar seus impactos sobre a competitividade e apoiar decisões relacionadas à alocação de recursos. Como os investimentos costumam exigir aportes relevantes, a consultoria recomenda que o colegiado esteja preparado para defender a realocação de investimentos de áreas tradicionais para iniciativas consideradas mais estratégicas para o futuro da empresa.
O segundo eixo aborda riscos e controles, incluindo a supervisão da privacidade de dados, da transparência dos sistemas e da neutralidade algorítmica. Também envolve mecanismos capazes de reduzir riscos relacionados a vazamentos de informações, fraudes e respostas imprecisas produzidas pela Inteligência Artificial.
Ao tratar desse ponto, Maluf afirma: “Para isso, o conselho precisa ter maturidade para inserir a Inteligência Artificial diretamente na matriz de riscos da empresa, assegurando que o uso da ferramenta esteja rigidamente alinhado ao apetite de risco estabelecido.”
A terceira dimensão reúne ética e compliance. O material destaca que os conselhos precisam acompanhar a evolução das regulamentações sobre Inteligência Artificial e supervisionar o uso ético da tecnologia, incluindo auditorias que assegurem sistemas livres de vieses discriminatórios. Também atribui aos colegiados a responsabilidade de revisar os códigos de conduta para estabelecer diretrizes de governança e prever sanções para o uso inadequado dessas ferramentas.
Já a quarta dimensão trata da capacitação do próprio conselho. A proposta é que os conselheiros mantenham atualização contínua sobre aspectos regulatórios, riscos e investimentos relacionados à IA, além de incorporarem a própria tecnologia ao funcionamento dos conselhos, utilizando agentes de Inteligência Artificial para apoiar análises e decisões específicas.
O quinto eixo concentra-se em cultura e talentos. A consultoria defende que os conselhos acompanhem os impactos da automação sobre a força de trabalho, observando iniciativas de upskilling e reskilling, critérios de recrutamento e desenvolvimento de profissionais e a adaptação da cultura organizacional ao uso da IA.
“Mais do que aprovar ferramentas, o papel do conselho é assegurar que a liderança fomente uma cultura organizacional de inovação aberta e resiliência, onde o uso da IA esteja incorporado de forma natural ao cotidiano das equipes e rigorosamente alinhado aos valores e ao propósito de longo prazo da companhia”, observa Maluf.
Ao comentar a evolução da governança da Inteligência Artificial nos próximos anos, o executivo avalia que o principal desafio tende a ser menos técnico e mais cultural. “Há profissionais com um grande anseio em relação ao tema, uma curiosidade positiva, por não dominar ainda a ferramenta e por querer entender como ela pode contribuir para a melhor gestão do seu trabalho. Existe um tempo de aprendizagem natural, assim como aconteceu com outras tecnologias. Pela velocidade do avanço, em três a quatro anos a capacidade técnica já existirá; o maior desafio será a adaptação cultural dos próprios conselheiros”, conclui.

