Pesquisa da UFABC analisou dados de 2000 a 2024 e encontrou forte correlação entre certificações de gestão da qualidade, produtividade e evolução econômica em Brasil, China, Alemanha e Itália
A expansão das certificações ISO 9001 acompanhou o crescimento econômico de diferentes países ao longo de 25 anos, aponta o estudo “Normas ISO como Vetor de Desenvolvimento Econômico: Evidências Internacionais e o Caso da China”, desenvolvido por Alexandre Pierro, doutorando da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo.
A pesquisa analisou a evolução do PIB e a expansão das certificações ISO 9001 entre 2000 e 2024 em quatro economias: Brasil, China, Alemanha e Itália. Também foi considerado o agregado mundial e encontrou uma associação positiva de longo prazo entre a evolução do PIB e o número de certificações ISO 9001, norma voltada à gestão da qualidade.
O levantamento considera a certificação como indicador da disseminação de práticas formais de gestão, padronização de processos e melhoria contínua. Entre os países analisados, a correlação estatística entre PIB e certificações ISO 9001 chegou a 0,917 na China, 0,900 no Brasil, 0,877 no agregado mundial, 0,667 na Itália e 0,544 na Alemanha.
“Esses dados, contudo, alertam que a norma não causa crescimento de forma isolada, nem traz impactos imediatos de um ano para o outro. Trata-se de um processo estrutural no qual padronização, eficiência industrial, produtividade e avanço econômico evoluem de forma associada”, pontua Pierro.
China concentra a maior transformação
A China apresentou a mudança mais expressiva entre os mercados estudados. Entre 2000 e 2024, o PIB do país passou de US$ 1,21 trilhão para US$ 18,74 trilhões, crescimento de 15,4 vezes. No mesmo intervalo, o número de certificados ISO 9001 aumentou 25,4 vezes, de 25,6 mil para mais de 651,8 mil. A participação chinesa no total mundial de certificações passou de 6,3% para 44,2%. A relação com a produtividade também apresentou correlação elevada. Considerando o PIB por trabalhador chinês, o índice em relação às certificações ISO 9001 chegou a 0,929.
O estudo relaciona esse cenário à capacidade de a padronização reduzir falhas, documentar processos e facilitar a inserção de empresas em cadeias globais de suprimento. Nesse período, a economia chinesa deixou de ser associada apenas à produção de produtos baratos e de baixa qualidade, conforme a descrição apresentada no estudo, e passou a figurar entre as maiores economias do mundo.
Diferenças entre os mercados
No Brasil, a correlação de longo prazo entre PIB e certificações ISO 9001 chegou a 0,900. O pico dos dois indicadores ocorreu simultaneamente em 2011, quando o país registrou PIB de US$ 2,61 trilhões e mais de 28,3 mil empresas certificadas. Em 2024, havia cerca de 18,5 mil certificados ativos no país, enquanto o PIB registrado foi de US$ 2,19 trilhões.
Os dados europeus apresentam comportamentos distintos. Na Alemanha, o PIB continuou crescendo enquanto o número de certificados permaneceu relativamente estável, cenário associado à consolidação dos processos de qualidade no tecido produtivo do país. Na Itália, a intensidade das certificações foi mais elevada: em 2024, eram 42,6 certificados ISO 9001 para cada US$ 1 bilhão de PIB.
Efeito econômico depende do contexto de cada país
A comparação entre os quatro países analisados aponta que a relação entre padrões de gestão e desempenho econômico varia de acordo com as características produtivas, institucionais e tecnológicas de cada mercado.
“Quando efetivamente incorporados à gestão, esses sistemas padronizados podem contribuir para reduzir retrabalho, falhas e custos de não qualidade, além de fortalecer a documentação e a disseminação do conhecimento, aumentar a previsibilidade dos processos e criar condições mais favoráveis à melhoria contínua”, complementa.
A pesquisa também apresenta a ISO 9001 como uma plataforma de gestão que pode ser integrada a iniciativas de inovação, digitalização, gestão de riscos, sustentabilidade, segurança da informação e outros sistemas corporativos.
Nessa perspectiva, o estudo relaciona a integração dos sistemas à interoperabilidade entre empresas, à redução de custos de transação, ao aumento da confiança entre compradores e fornecedores e à diminuição de barreiras de acesso a mercados internacionais.
Estudo analisa 25 anos de dados
A ISO 9001 foi utilizada como indicador da disseminação de práticas formais de gestão da qualidade, padronização de processos e melhoria contínua. A análise comparou a evolução das certificações com indicadores econômicos, incluindo PIB e, no caso chinês, PIB por trabalhador.
Os resultados foram expressos por meio de correlações estatísticas, que apontaram diferentes níveis de associação entre a expansão das certificações e os indicadores econômicos analisados.
Para governos e formuladores de políticas públicas, o estudo aborda ainda a infraestrutura da qualidade — formada por normalização, metrologia, acreditação, avaliação da conformidade e certificação — como parte de uma agenda de produtividade e inovação.
“Isso não significa, porém, que elevar artificialmente o número de certificados deva constituir objetivo de política pública. O impacto depende da qualidade da implementação, da capacidade tecnológica das organizações, de capital humano, investimento e da utilização efetiva dos sistemas de gestão”, explica.
O estudo ressalta que normas técnicas e sistemas formais de gestão não substituem inovação, investimento ou capital humano, mas podem contribuir para a forma como esses recursos são convertidos em processos organizacionais.
“A padronização não substitui a inovação, investimento ou capital humano. Seu papel é aumentar a capacidade das organizações de transformar esses recursos em processos confiáveis, replicáveis e escaláveis”, finaliza Pierro.

