Levantamento reúne mais de 60 iniciativas nacionais e internacionais e mostra como conservação ambiental avança como ativo competitivo e financeiro
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou um levantamento inédito que identifica mais de 60 iniciativas nacionais e internacionais dedicadas ao mercado de créditos de biodiversidade. O material funciona como um guia para o setor produtivo em um cenário em que a conservação ambiental passa a representar não apenas compromisso socioambiental, mas também vantagem competitiva e reputacional para empresas.
O estudo destaca que a biodiversidade e os ecossistemas prestam serviços essenciais à economia e à sociedade, como regulação climática, polinização, controle de pragas, oferta de água, fertilidade do solo e estabilidade hidrológica. Esses processos sustentam atividades produtivas e contribuem diretamente para a segurança alimentar, energética e hídrica.
Diante do avanço da degradação ambiental e da crescente necessidade de financiamento para conservação, surgem instrumentos capazes de transformar resultados ambientais positivos em ativos financeiros negociáveis.
Para o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, o envolvimento empresarial nesse mercado pode fortalecer o protagonismo brasileiro na agenda ambiental global. “O levantamento mostra que os créditos de biodiversidade podem apoiar projetos com resultados mensuráveis para a natureza e incentivar a indústria a incorporar a conservação como ativo de competitividade e financiamento para os ecossistemas brasileiros”, afirma.
Créditos de biodiversidade ganham espaço ao lado do mercado de carbono
Embora o crédito de carbono ainda seja o mecanismo ambiental mais conhecido, o estudo aponta o crescimento do mercado de biodiversidade, voltado diretamente à conservação da natureza.
Os créditos de biodiversidade financiam ganhos ecológicos mensuráveis obtidos a partir de ações de conservação ou restauração ambiental. Cada unidade representa melhorias verificáveis, como recuperação de habitats, conexão entre áreas naturais e proteção de espécies, acompanhadas ao longo do tempo.
Esses créditos podem ser produzidos por governos, organizações, proprietários de terra ou empresas ligadas à conservação. O setor produtivo pode adquiri-los para financiar projetos e cumprir metas próprias, de forma semelhante ao uso de créditos de carbono para compensação de emissões.
Segundo o levantamento, a lógica do mercado de biodiversidade vai além da neutralização de impactos e busca ampliar a saúde dos ecossistemas por meio de investimentos em preservação e restauração ambiental.
Brasil reúne projetos ligados à conservação e produção sustentável
O estudo aponta que o Brasil já concentra iniciativas relevantes nesse mercado. Entre os exemplos citados estão projetos de proteção da onça-pintada no Pantanal, desenvolvidos pela ERA Brasil e pelo Instituto Homem Pantaneiro, que emitem créditos associados à conservação da espécie.
Na agricultura, a BASF Agricultural Solutions desenvolve o Nature-Positive Credit, voltado à produção sustentável. O levantamento também cita iniciativas como Bluebell Index e BMV Global, que oferecem unidades de sustentabilidade e tokens ligados à preservação e restauração ambiental no território brasileiro.
COP15 impulsionou debate global sobre biodiversidade
O avanço do mercado de créditos de biodiversidade também acompanha o fortalecimento das discussões internacionais sobre financiamento ambiental.
Durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada em Kunming-Montreal em 2022, 196 países adotaram o Quadro Global de Biodiversidade, estabelecendo metas até 2030 e reforçando a inclusão do tema em políticas públicas, mercados e cooperação internacional.
Segundo a Comissão Europeia, o acordo reconhece a necessidade de mobilizar ao menos US$ 200 bilhões por ano para conservação ambiental, apontando os créditos de biodiversidade como um dos instrumentos capazes de ajudar a reduzir essa lacuna de financiamento.
Publicação detalha metodologias de mensuração e certificação
Além do mapeamento de projetos, o material da CNI reúne metodologias de mensuração, certificação e plataformas de negociação, permitindo que empresas incorporem riscos e oportunidades relacionados à natureza em relatórios de sustentabilidade e atendam exigências de investidores e iniciativas internacionais, como a Science Based Targets Network.
O levantamento identifica duas abordagens predominantes para mensuração dos créditos. A primeira mede as ações implementadas, como plantio de espécies nativas, controle de invasoras e manejo sustentável. Nesse modelo estão iniciativas como Crédito LIFE de Biodiversidade e Biodiversity Action Credit.
A segunda abordagem mede resultados efetivos para a natureza e é considerada mais robusta. Nesse formato, o crédito só é emitido quando há comprovação de melhorias ambientais, como recuperação de habitats ou aumento populacional de espécies. Programas como Plan Vivo Biodiversity Certificates, BioCarbon Standard e SD VISta Nature Framework utilizam indicadores ecológicos para validar esses resultados.
Entre os indicadores utilizados estão espécies protegidas ou recuperadas, qualidade e extensão de habitats, integridade do ecossistema e serviços ecológicos associados.
Mercado voluntário avança com plataformas digitais e rastreabilidade
Na etapa de certificação, os esquemas combinam validação científica, auditoria independente e sistemas de mensuração, reporte e verificação (MRV). O estudo cita padrões reconhecidos internacionalmente, como Verra SD VISta Nature Framework, Plan Vivo Foundation, Accounting for Nature e Cercarbono Biodiversity Certification Programme.
Em muitos casos, os projetos exigem adicionalidade ambiental e participação de comunidades locais ou povos indígenas, fortalecendo a credibilidade socioambiental das iniciativas. Segundo a CNI, o mercado de créditos de biodiversidade ainda opera majoritariamente de forma voluntária e funciona principalmente por meio de marketplaces digitais, registros ambientais com rastreabilidade e modelos híbridos que conectam ativos ambientais a instrumentos financeiros e digitais.

