Painel no SAHIC 2026 aponta que sustentabilidade, autenticidade e integração com comunidades já orientam decisões de investimento e valor no setor
A indústria da hotelaria de luxo passa por uma transformação estrutural, em que experiência, impacto e sustentabilidade deixam de ser diferenciais para se tornarem fundamentos do negócio. Essa foi a principal conclusão do painel “Redefinindo Luxo por meio do Impacto – Experiência, ESG e Criação de Valor de Longo prazo”, realizado durante o SAHIC 2026, no Rio de Janeiro.
Ao longo da discussão, executivos do setor convergiram na avaliação de que o conceito tradicional de luxo, segmento historicamente associado a padrões importados e alto custo material, vem sendo substituído por um modelo centrado em autenticidade, conexão cultural e geração de valor de longo prazo.
Laurent Carrasset, vice-presidente da divisão Latam do Grupo Belmond, sintetizou essa mudança ao afirmar que o setor precisa ampliar sua visão sobre retorno e impacto. “Devemos ampliar a definição, não é somente retorno financeiro, também é residência cultural, social e ambiental ao longo do tempo. Em definitivo, se a comunidade nõ se beneficia, o ativo não será sustentável.”
A lógica de longo prazo também foi destacada como elemento central na construção de valor. Joe Koechlin, fundador e CEO da Inkaterra, trouxe exemplos de iniciativas que conectam conservação ambiental, ciência e desenvolvimento de destinos turísticos. Ao mencionar projetos que envolvem inventários de biodiversidade e regeneração de habitats, reforçou que o impacto positivo está diretamente ligado à perenidade dos ativos. “O longo termo é na realidade, no nosso caso, criar valor à terra e criar destino.”

Na mediação do debate, Paula Muniz, diretora sênior de Desenvolvimento Banyan Group, provocou os participantes a refletirem sobre a distância entre discurso e prática na chamada “investimento guiado por impacto”, questionando como esse conceito se traduz no dia a dia da operação. “Como fazemos para que o impacto deixe de ser percebido principalmente como mitigação de risco e obrigação documental, e passe a ser reconhecido como um ativo central e um impulsionador de valor?”
Na prática, segundo os executivos, essa transformação já ocorre em três dimensões principais: no desenvolvimento dos ativos, na operação e na experiência do cliente. O uso de materiais locais, a priorização de fornecedores regionais e a integração com comunidades deixam de ser iniciativas pontuais para estruturar o modelo de negócio.
Guilherme Cesari, head of Development Americas Luxury & Lifestyle na Accor, destacou que a autenticidade se tornou um eixo estratégico no desenvolvimento de projetos, especialmente no segmento de luxo e lifestyle. “A autenticidade, a conexão com a comunidade local, a conexão com a cultura local, com a natureza, o respeito por preservar a cultura, a natureza. Tudo isso, todos esses temas, estão muito conectados.”
Segundo ele, essa abordagem se reflete desde a escolha de arquitetos locais até a curadoria de experiências e serviços, incorporando identidade cultural ao produto final e respondendo a uma demanda crescente por experiências mais genuínas.
A mudança também se manifesta no comportamento do consumidor. O painel apontou que o viajante de luxo atual busca significado, aprendizado e conexão, deslocando o foco do consumo de bens para a vivência de experiências. Nesse contexto, investimentos antes direcionados a itens importados e infraestrutura passam a ser alocados na formação de equipes, no desenvolvimento de serviços e na construção de narrativas locais.
Outro eixo central do debate foi a evolução do ESG dentro da indústria. Antes tratado como exigência regulatória, o tema passa a influenciar diretamente o valor dos ativos e as decisões de investimento. Redução de emissões, eficiência no uso de recursos e certificações ambientais já impactam tanto a atratividade para investidores quanto a disposição do cliente em pagar mais.
Além disso, iniciativas que conectam turismo e desenvolvimento social foram apresentadas como exemplos concretos de geração de valor compartilhado. Projetos que envolvem comunidades locais na cadeia produtiva, criam novas fontes de renda e promovem sustentabilidade ambiental reforçam o papel do setor como agente de transformação.
O painel também destacou que essa nova lógica encontra na América Latina um terreno especialmente fértil. A combinação de biodiversidade, riqueza cultural e destinos únicos posiciona a região como protagonista na oferta de experiências que não podem ser replicadas em outros mercados.
Nesse contexto, a complexidade histórica da região deixa de ser vista apenas como risco e passa a ser entendida como diferencial competitivo. Para os participantes, o chamado “luxo com impacto” não apenas se adapta à América Latina, mas nasce a partir de suas características.
Ao final, a conclusão foi unânime: o desenvolvimento responsável deixou de ser tendência e se consolidou como uma exigência estrutural da indústria. Como resumiu a mediação do painel, trata-se de uma mudança definitiva no setor, em que impacto, experiência e valor caminham de forma indissociável.

