Pesquisa Workforce 2026 revela que metade dos profissionais brasileiros enfrenta demandas acima de sua capacidade de entrega, enquanto a redução de gestores e o avanço da inteligência artificial transformam a rotina nas empresas.
O aumento da carga de trabalho e a redução das estruturas gerenciais estão entre os principais desafios enfrentados pelos profissionais brasileiros. A terceira edição da pesquisa global Workforce, realizada pela Korn Ferry, revela que 63% dos trabalhadores no Brasil perceberam um crescimento significativo de suas responsabilidades nos últimos dois anos, percentual ligeiramente superior à média global de 62%.
A Workforce 2026 é a terceira edição anual do estudo global conduzido pela Korn Ferry, consultoria especializada em performance organizacional. A pesquisa ouviu mais de 16 mil profissionais de diferentes níveis hierárquicos, desde posições de entrada até CEOs, distribuídos por 11 mercados: Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Brasil, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, França, Índia, Japão, Reino Unido e Singapura.
O levantamento apresenta indicadores específicos do Brasil e comparações com os resultados globais, abordando temas como carga de trabalho, estruturas gerenciais, inteligência artificial, eficiência organizacional e prioridades profissionais, e mostra que 50% dos brasileiros consideram que as demandas profissionais já ultrapassam sua capacidade de entrega, ante 44% na média global. Outros 47% afirmam estar ocupados demais para produzir resultados relevantes.
Os dados evidenciam uma rotina em que novas atividades são incorporadas sem a eliminação das anteriores. Embora os profissionais tenham clareza sobre suas prioridades, o volume de tarefas limita o tempo disponível para executá-las.
“A clareza sobre as prioridades é importante, mas não é suficiente quando a rotina permanece tomada por demandas que pouco contribuem para os resultados. Se as empresas não eliminarem atividades de baixo valor, as pessoas continuarão sabendo o que é mais importante, mas sem tempo para se dedicar a isso, uma situação que pode, inclusive, comprometer sua motivação”, afirma Rodrigo Araújo, managing partner da Korn Ferry Brasil.
Redução de gestores amplia pressão sobre a liderança intermediária
A reorganização das estruturas corporativas também aparece entre os fatores associados à sobrecarga profissional. No Brasil, 59% dos entrevistados afirmam acumular responsabilidades de mais de uma função, percentual próximo dos 61% registrados globalmente.
Além disso, 46% dos profissionais brasileiros relatam que suas organizações já reduziram o número de gestores, enquanto 39% afirmam que o enxugamento da camada gerencial compromete a clareza sobre as prioridades.
A pesquisa relaciona parte dessa redistribuição de responsabilidades à reestruturação de cargos e à substituição parcial de atividades pela inteligência artificial. Nesse processo, determinadas tarefas passam a ser executadas pela tecnologia, enquanto outras são transferidas aos profissionais que permanecem nas equipes.
Apesar do acúmulo de funções, 58% dos entrevistados afirmam receber recompensas adequadas pelo esforço adicional. O levantamento aponta, porém, dificuldades relacionadas à ausência de prazos e expectativas claramente definidos para essas novas atribuições.
A situação é particularmente relevante para os gestores intermediários, que precisam responder às cobranças por resultados e, simultaneamente, administrar equipes submetidas a um volume crescente de demandas.
Entre os brasileiros ouvidos, 49% relatam exaustão diante do ritmo das mudanças organizacionais. Ao mesmo tempo, apenas 18% afirmam receber de seus gestores o suporte necessário para exercer suas funções.
“Proteger a capacidade gerencial é uma decisão de negócio, porque nenhuma organização sustenta desempenho quando seus líderes não têm tempo e condições para liderar”, declara Vinicius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry.
Inteligência artificial aumenta eficiência, mas também o volume de tarefas
A adoção de inteligência artificial apresenta resultados distintos quando analisada sob as perspectivas de produtividade e carga de trabalho. De acordo com a Workforce 2026, 52% dos profissionais brasileiros afirmam que as ferramentas de IA aumentaram o número de tarefas esperadas em suas funções, percentual próximo da média global de 51%. Por outro lado, 70% dos entrevistados no Brasil dizem ter recebido treinamento adequado para utilizar essas tecnologias, diante de 52% na média global.
O levantamento também registra que 74% dos brasileiros percebem ganhos reais de eficiência com o uso de inteligência artificial no trabalho, em comparação com 63% globalmente. Apesar dos indicadores de capacitação e produtividade, a pesquisa identifica diferenças entre a iniciativa dos profissionais para adaptar suas atividades e a capacidade das empresas de redesenhar formalmente funções e processos para integrar pessoas e tecnologia.
A transformação conduzida individualmente, sem mudanças equivalentes nas estruturas organizacionais, também apresenta desafios relacionados à governança, à mensuração dos resultados das implementações e à segurança e proteção dos dados.
Busca por eficiência limita espaço para inovação
A prioridade atribuída à eficiência operacional é outro aspecto identificado pela pesquisa.
No Brasil, 63% dos profissionais afirmam que suas organizações priorizam ganhos de eficiência em vez da exploração de novas formas de gerar valor. Além disso, 52% consideram que seu desempenho é limitado por processos e estruturas já existentes.
A relação entre eficiência e inovação também aparece nas respostas sobre experimentação. Apenas 52% dos brasileiros afirmam que seus gestores incentivam o desenvolvimento de novas ideias e o uso de tecnologias, cinco pontos percentuais abaixo da média global de 57%. Ao mesmo tempo, 16% dos entrevistados consideram suas organizações ineficazes na transformação de novas ideias em resultados concretos.
Salário, estabilidade e benefícios ganham importância nas decisões de carreira
Além das mudanças na organização do trabalho, a Workforce 2026 identifica alterações nas prioridades dos brasileiros ao escolher ou permanecer em um emprego. Na comparação entre 2024 e 2026, fatores como aprendizado e desenvolvimento e trabalho integralmente remoto perderam espaço entre os critérios mais citados para a escolha de uma nova oportunidade. Em contrapartida, benefícios e progressão de carreira passaram a integrar as principais prioridades.
Salário e remuneração permanecem na liderança, com 88% das menções, enquanto o fator “o trabalho em si” ocupa a quinta posição entre os critérios mais citados, com 61%. Quando a questão é a permanência no emprego atual, a remuneração também aparece em primeiro lugar, mencionada por 92% dos profissionais.
Segurança e estabilidade vêm em seguida, com 88%. Já o tratamento justo e consistente, critério incluído pela primeira vez na edição de 2026, alcança 86% das respostas. Os resultados mostram a importância atribuída pelos profissionais brasileiros à remuneração, à estabilidade e às condições oferecidas pelas organizações em suas decisões de carreira.
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