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Mulheres lideram o sustento dos lares, mas cuidado e falta de recursos limitam negócios

Pesquisa nacional do Instituto RME mostra que 57,3% das empreendedoras são as principais provedoras de suas famílias, enquanto apenas 10% conseguem poupar ou reinvestir após as despesas básicas

O empreendedorismo feminino no Brasil reúne quase 10 milhões de empresas ativas e tem participação relevante na economia nacional. Ao mesmo tempo, as mulheres que empreendem enfrentam desafios relacionados à necessidade de geração de renda, à sobrecarga do trabalho de cuidado, à informalidade e ao acesso a recursos para seus negócios.

É o que mostra a pesquisa nacional “Empreendedoras e Seus Negócios 2026”, realizada pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), por meio do LAB – Laboratório de Gênero e Empreendedorismo, executada pela Tewá 225, com patrocínio do W20 Brasil e apoio institucional do Pacto Global da ONU Brasil, FIA Business e Rede Mulher Empreendedora.

Em sua 11ª edição, o estudo analisou o perfil das empreendedoras brasileiras, os principais desafios enfrentados na jornada empresarial e temas como saúde mental, trabalho de cuidado, criação de conteúdo, participação política e situações de violência contra a mulher.

A pesquisa adotou uma metodologia integrada, combinando levantamento quantitativo por questionário, fontes secundárias e entrevistas de campo com grupos de empreendedoras, além de dados oficiais preliminares do IBGE, IPEA e DataSenado.

A etapa quantitativa reuniu 1.176 respostas válidas, distribuídas pelas cinco regiões do país, com grau de confiança de 95% e margem de erro máxima de 3,1%. Já a etapa qualitativa contou com 95 mulheres distribuídas em 15 grupos focais, além de cinco entrevistas com especialistas e representantes de organizações parceiras.

Mulheres sustentam os negócios e os lares

Entre as empreendedoras entrevistadas, 70% trabalham por conta própria, sem colaboradores. A alimentação e gastronomia aparecem como principal ramo de atuação, com 21,3% das respostas, enquanto 39,8% dos empreendimentos têm entre dois e cinco anos de existência.

A relação entre empreendedorismo e responsabilidades familiares também aparece nos dados. Do total, 73,8% são mães, quase metade são mães solo e 57,3% ocupam o posto de principais provedoras de suas famílias.

A pesquisa aponta ainda que 52,3% das empreendedoras se declaram negras, considerando mulheres pretas e pardas. O grupo permanece como maioria em todos os anos da série histórica do levantamento.

Em relação à escolaridade, 57,9% possuem ensino superior e 36,6% contam com pós-graduação. Ao mesmo tempo, 5,8% não tiveram acesso à educação básica. A faixa etária predominante está entre 30 e 49 anos, com mulheres de 40 a 49 anos representando 35% das entrevistadas.

Outro dado destacado pela pesquisa é o crescimento da participação de mulheres com 70 anos ou mais, que chegaram a 5% do total em 2026, cinco vezes mais do que em edições anteriores.

“Ao longo dos 11 anos em que a Rede Mulher Empreendedora acompanha a evolução do empreendedorismo feminino no Brasil, a trajetória evidencia avanços, ao mesmo tempo em que expõe barreiras estruturais e desafios novos. É preciso entender que quando as mulheres prosperam financeiramente, todos ganham, pois elas tendem a investir na própria família e comunidade ao redor. Os caminhos estão aí: é preciso dar a elas rede de apoio, capacitação e colocar dinheiro na mesa delas para que possam prosperar com maior velocidade”, destaca Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.

Trabalho de cuidado pesa sobre os negócios

A sobrecarga de atividades não remuneradas aparece entre os principais obstáculos identificados pelo estudo. Três em cada quatro empreendedoras, ou 75%, afirmam não contar com qualquer apoio informal de parceiros, familiares ou serviços pagos.

Como consequência, 80,7% já precisaram interromper as atividades de suas empresas para realizar tarefas de cuidado, enquanto 61,7% afirmam que essa sobrecarga trava diretamente o desenvolvimento do negócio.

A desigualdade também aparece no recorte racial. Embora representem 52,3% das empreendedoras, as mulheres negras apresentam taxa de informalidade de 42,8%, contra 24,5% entre as demais, uma diferença de 75%.

A divulgação dos negócios também representa um desafio. A gestão de marketing e divulgação é apontada como principal obstáculo por 51,9% das participantes. Embora 72,2% utilizem a internet para promover produtos e serviços, a maioria não se identifica como criadora de conteúdo e relata receio de riscos como assédio digital e violência de gênero.

Renda, informalidade e acesso a crédito

A dimensão financeira é outro ponto levantado pela pesquisa. Quase metade dos negócios, 46,6%, fatura até R$ 3.242 por mês, equivalente a dois salários-mínimos. Apenas 10% das empreendedoras conseguem gerar sobra financeira para poupar ou reinvestir depois de cobrir as despesas básicas. A informalidade alcança 31,9% do setor e tem como principal motivação os altos custos, apontados por 38,9% das entrevistadas.

O levantamento mostra ainda que 81,1% consideram que as mulheres enfrentam mais desafios que os homens no empreendedorismo. Entre as entrevistadas, 54,7% começaram a empreender por necessidade e dedicam seis horas semanais a menos aos próprios negócios do que os homens, em razão da jornada doméstica e de cuidado acumulada.

A pesquisa também identifica impactos relacionados à segurança. Relatos de insegurança e medo da violência de gênero fazem com que algumas empresárias evitem eventos noturnos e outros espaços considerados menos seguros. O acesso ao crédito, por outro lado, apresentou crescimento, no qual o percentual passou de 25% em 2023 para 47,8% em 2026.

Representatividade e perspectivas

A pesquisa aponta ainda uma lacuna na percepção de representatividade política. Apenas 14% das entrevistadas se sentem representadas na política como empreendedoras, enquanto 13,6% se sentem representadas como mulheres.

Apesar disso, 56,4% rejeitam o voto nulo ou em branco e 76,8% consideram essencial que candidatos apresentem propostas relacionadas às causas que priorizam.

Em relação às perspectivas pessoais e profissionais, 70,1% das empreendedoras se declaram confiantes e 66,7% otimistas. Os índices de ansiedade e cansaço são de 30,9% e 18,4%, respectivamente.

O sentimento de independência financeira também aparece entre os resultados: 60,1% se consideram financeiramente independentes.

Cinco frentes para apoiar o empreendedorismo feminino

A partir dos desafios identificados, o Instituto RME estrutura sua atuação em cinco frentes: Crédito e Capital; Formalização e Gestão; Acesso a Mercados; Rede de Apoio; e Representatividade.

Na frente de Crédito e Capital, a organização oferece microcrédito facilitado por meio de projetos da RME via FIRME (Fundo de Impacto e Renda para Mulheres). Em Formalização e Gestão, disponibiliza capacitações gratuitas em finanças e aceleração por meio de projetos e da plataforma de Cursos RME.

Para ampliar o Acesso a Mercados, o Instituto promove programas gratuitos que aproximam empreendedoras de grandes compradores. Já a frente de Rede de Apoio é desenvolvida por meio da Comunidade RME, Clube RME, RME Mentorias, rede de Embaixadoras e eventos regionais.

A Representatividade é apoiada pela produção de pesquisas de impacto social realizada pelo LAB RME, com geração de dados destinados a subsidiar políticas públicas.

“Ao unir capacitação, crédito, mercado, rede e dados, o Instituto RME não apenas responde às urgências do presente, mas constrói caminhos sustentáveis para o futuro do empreendedorismo feminino no Brasil’, ressalta Ana.

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