Pesquisa com mais de 1,5 mil líderes no Brasil e na América Latina revela mudança nas prioridades da gestão de pessoas, com foco em resultados, comunicação e adaptação a um cenário de rápidas transformações
O mundo do trabalho entra em 2026 sob um sentimento crescente de incerteza. É o que revela a 8ª edição do Relatório de Tendências em Gestão de Pessoas do Great Place To Work (GPTW), referência mundial em cultura organizacional. Segundo o estudo, a incerteza em relação às perspectivas de negócios saltou de 16% em 2019 para 35,4% em 2026, o maior índice da série histórica, mesmo com o otimismo ainda predominando entre empresas e lideranças.
Nesse contexto, o desenvolvimento e a capacitação da liderança assumem o primeiro lugar na lista de desafios e prioridades da gestão de pessoas. O tema alcançou 57,4% das respostas, o maior percentual dos últimos cinco anos, consolidando-se como a principal tendência para 2026. Na sequência aparecem a transformação ou evolução da cultura organizacional e o engajamento e comprometimento das pessoas.
Um dos movimentos mais relevantes desta edição é a saída da saúde mental do topo das preocupações. O tema, que ocupava a segunda posição em anos anteriores, caiu de 30% para 19,3% e deixou a lista dos principais desafios. De acordo com o relatório, essa mudança indica maior maturidade das organizações na abordagem do assunto, impulsionada por práticas mais estruturadas, maior destinação de orçamento e pelo avanço no mapeamento de riscos psicossociais, possivelmente influenciado por exigências regulatórias como a NR-1.
A dificuldade na contratação de profissionais qualificados também ganhou destaque. Após figurar como um dos principais desafios em 2025, o tema passou de 12% para 21,9% em 2026, refletindo a complexidade de preenchimento de vagas em um mercado cada vez mais competitivo. A Inteligência Artificial segue em ascensão, subindo de 9% para 18,7%, embora ainda apareça de forma incipiente quando comparada a outras competências consideradas prioritárias.
A pesquisa revela ainda uma mudança clara no perfil de liderança valorizado pelas empresas. Após três anos com a empatia no topo das características mais desejadas, a capacidade de entregar resultados assumiu a liderança, também com 57,4%. Ainda assim, habilidades relacionadas à gestão de pessoas seguem relevantes: 49,8% dos respondentes indicam a comunicação eficiente como essencial, incluindo a capacidade de dar feedbacks de qualidade, disseminar mensagens estratégicas e exercer a escuta ativa.
Segundo Daniela Diniz, diretora de comunicação e relações institucionais do GPTW e coordenadora do estudo, o foco crescente em resultados reflete o ambiente de mudanças aceleradas. “Essa alteração diz muito sobre o cenário de mudanças rápidas e tomadas de decisão eficiente que vivemos e acende um alerta”, afirma.
O relatório também detalha tendências em outros eixos da gestão contemporânea. No que diz respeito aos formatos de trabalho, o modelo 100% presencial lidera, com 51,1%, seguido pelo híbrido, com 41,3%. No entanto, empresas exclusivamente presenciais relatam maior dificuldade para preencher vagas em comparação às que adotam modelos híbridos ou remotos.
Em Diversidade, Equidade e Inclusão, 59,7% das organizações seguem considerando o tema relevante, embora enfrentem restrições orçamentárias. Na América Latina, cerca de 20% das empresas afirmam que o assunto não é estratégico. Já a agenda ESG é vista como essencial para a longevidade do negócio por 42,5% dos respondentes no Brasil, percentual inferior ao observado em outros países latino-americanos (45,8%).
No campo da inovação e tecnologia, o uso da inteligência artificial apresentou crescimento, mas ainda com foco maior na infraestrutura tecnológica do que na capacitação das pessoas para o uso estratégico dessas ferramentas. No ranking geral, a IA ocupa apenas a oitava posição, enquanto competências como resolução de problemas complexos, resiliência e pensamento crítico seguem no topo das prioridades.
A pesquisa foi realizada entre novembro e dezembro de 2025 e contou com 1.577 respondentes, sendo 1.346 no Brasil e 227 na América Latina. A maioria ocupa cargos de liderança (69,5%), especialmente na área de Recursos Humanos (68,8%), em empresas de diferentes portes, com maior concentração nos setores de tecnologia e telecomunicações, serviços e financeiro. Participaram profissionais das gerações Y ou Millennials (50,2%), X (35,6%) e Z (9,4%).
O relatório completo está disponível no site do GPTW.

