Vila fundada no período colonial no litoral sul da Bahia combina patrimônio histórico, praias e turismo estruturado
Chegar a Morro de São Paulo é, antes de tudo, uma mudança de ritmo. Assim que o barco atraca no píer, o corpo entende: aqui as regras são outras. Não há carros, não há pressa e não há grandes distâncias que não possam ser vencidas a pé. Além do vento constante que sopra da Baía de Todos os Santos, o som que acompanha os primeiros passos é o do mar, misturado às conversas e às rodas dos transfers de bagagens – popularmente conhecidos por “ubers de malas” – que fazem o percurso do píer às pousadas.
Localizado no arquipélago de Tinharé, no município de Cairu, na Costa do Cacau, no litoral sul da Bahia, Morro é desses destinos que não se esgotam à primeira vista. A subida íngreme que leva ao pórtico que anuncia as boas-vindas, é somente um prenúncio da beleza estonteante que virá a seguir. O centrinho, localizado ao redor de uma praça, é um charme e oferece inúmeras opções de restaurantes, algumas pousadas, serviços e galeria de arte. A partir dele, as praias se sucedem em sequência, quase como capítulos de uma mesma história, que pode ser visitada a pé, em poucos minutos.
As praias de Morro de São Paulo
A Primeira Praia, com apenas 315 metros de extensão, é o ponto de partida. O mirante, situado logo nos primeiros passos, é um convite à contemplação da imensidão do horizonte de águas calmas que parece não ter fim. É na Primeira Praia também que os visitantes podem praticar atividades como banana boat, o mergulho com cilindro e a tirolesa de três níveis. Essas atividades são impactadas pela maré, que quando muito baixa, pode inviabilizar ou influenciar a experiência.
Quando menos se espera, a atmosfera muda e você já está na Segunda Praia, que concentra bares e restaurantes com infraestrutura, música ao vivo e mesas que se estendem pela areia, além de um intenso comércio de ambulantes de comidas e drinks, ordenados ao longo da pequena orla, que possui pouco menos de 400 metros de extensão. É ali que Morro mostra seu lado social e vibrante, como um convite a sentir a brisa e assistir aos praticantes de esportes, degustando experiências gastronômicas e drinks – em especial os de cacau, servidos dentro da fruta que, esteticamente, proporcionam um espetáculo à parte.
A música diminui, as vozes mais altas cessam, o ar vai ficando mais calmo, e sentimos que estamos na transição para a Terceira Praia, que convida a diminuir novamente o passo. Poucos restaurantes, pousadas aconchegantes e o mar, que evidencia uma piscina natural de corais, é o cenário ideal para quem busca estar próximo do movimento, sem abrir mão da tranquilidade e do silêncio que Morro proporciona.



Mais adiante, a Quarta Praia e a Quinta Praia (ou Praia do Encanto), se abrem em extensão e silêncio. Com trechos praticamente intocados, são conhecidas pelas piscinas naturais formadas entre os recifes e pelo mar tranquilo. Isoladas, é para os viajantes que desejam realmente curtir a natureza de Morro de São Paulo ou se hospedar nos resorts.
Optamos pelo silêncio da Terceira Praia e nos hospedamos na Pousada Chez Max, em um bangalô rústico e acolhedor. Uma experiência única. Além de uma pequena vila de bangalôs, a pousada oferece quartos tradicionais, restaurante e piscina de borda infinita, com vista paradisíaca.
Um destino que carrega séculos de história
Entre um banho de mar e outro, Morro de São Paulo revela algo que nem sempre se percebede imediato: sua importância histórica. Fundado no século XVI, o vilarejo teve papel estratégico na defesa do território português. O Farol de Morro de São Paulo, erguido no século XIX, funciona como ponto de referência. No centro do vilarejo, a Igreja Nossa Senhora da Luz, datada do século XVII, segue como símbolo da formação local. Já a Fonte Grande, construída em 1746 para abastecimento de água, impressiona pelas dimensões e pelo estado de preservação. Tombada pelo IPHAN, é considerada uma das maiores fontes públicas do período colonial no Brasil. Esses elementos dão a Morro uma camada que vai além do lazer: há ali memória, permanência e identidade.
O pôr do sol como ritual
Em Morro de São Paulo, o pôr do sol é como um ritual coletivo. E Morro sabe valorizar o espaço público como parte essencial da experiência do destino, com plataformas públicas de contemplação, distribuídas em alguns pontos da ilha, que oferecem vista ampla para o mar e para as cores que tomam conta do céu.
Para os que preferem vivenciar esse espetáculo acompanhado de boa música e um drink à mão, a Toca do Morcego é reconhecidamente um dos pontos mais emblemáticos da ilha. Localizada ao longo da trilha do Farol, o bar combina a vista privilegiada a uma trilha sonora envolvente e a energia que transforma o entardecer em celebração. Foi dali que assistimos ao primeiro pôr do sol memorável em Morro de São Paulo.



Para além do Morro: passeios imperdíveis
A viagem a Morro de São Paulo não se limita à vila. Na realidade, boa parte da experiência está nos passeios. A opção Volta à Ilha visita as piscinas naturais de Garapuá, a Ilha de Boipeba, as piscinas naturais de Moreré, Canavieiras, onde é possível degustar ostras frescas, no Bar das Ostras, um restaurante flutuante que cultiva as ostras abaixo da sua estrutura. O passeio é finalizado com a visita a Cairu, uma das cidades mais antigas e históricas do Brasil.
Outra opção é o Full Day em Garapuá, em que é possível visitar por diferentes meios de transporte, cada um ofertando uma experiência: o traslado pode ser feito em veículo 4×4, quadriciclo ou buggy. Lá é comum os visitantes alugarem um caiaque transparente para explorar o manguezal cristalino. Existem somente dois manguezais cristalinos no mundo, um está situado na Polinésia e o outro é este, em Garapuá.


Há também o Passeio à Gamboa, ou Ilha da Coroa, famosa pelo banco de areia que surge na maré baixa e proporciona o famoso paredão de argila, um verdadeiro spa natural, além de um dos melhores pontos para assistir ao pôr do sol.
Os passeios são promovidos por agências locais. Um ponto muito positivo é que as tarifas são pré-fixadas e, por lei, as agências precisam cumprir os valores, de modo que a escolha por uma ou outra agência vai pelo atendimento e comodidade do visitante. Optamos pela Oceano Turismo.
Do boca a boca aos israelenses
Antes de figurar em campanhas turísticas ou grandes roteiros comerciais, Morro de São Paulo foi sendo revelado de forma quase orgânica, por viajantes independentes que compartilhavam a experiência entre amigos. Esse crescimento espontâneo ajudou a consolidar o destino turístico, preservando o caráter de vila.
Morro de São Paulo também se tornou especialmente popular entre turistas israelenses, em grande parte impulsionado pela exibição de uma série de televisão israelense gravada no local, que apresentou o destino a um público jovem em busca de viagens após o serviço militar. Desde então, a presença se consolidou, refletindo-se no cotidiano da vila, em cardápios, idiomas ouvidos nas ruas e em uma atmosfera internacional que convive naturalmente com o jeito baiano de viver.
Estrutura e ordem por trás da leveza
Mesmo preservando o clima despretensioso que a tornou famosa, Morro de São Paulo revela um cuidado evidente com sua organização urbana e estrutura de serviços. A ausência de carros, longe de ser um obstáculo, contribui para uma experiência mais agradável: a circulação é simples, o comércio se distribui de forma funcional e a limpeza chama a atenção ao longo das vilas e caminhos movimentados. Esse equilíbrio entre simplicidade e estrutura também aparece na oferta comercial. Além de restaurantes e negócios locais, a ilha já abriga franquias consolidadas, como Bob s e Milky Moo, um indicativo de fluxo turístico constante e de uma operação capaz de atender a diferentes perfis de viajantes.
Pouca gente sabe, mas Morro de São Paulo integra o município de Cairu, no continente, responsável pela administração de todo o Arquipélago de Tinharé. Essa gestão se reflete na harmonia entre preservação ambiental, turismo e serviços, ajudando a manter a ilha funcional, organizada e acolhedora, mesmo em períodos de alta temporada.
Quando ir
Morro pode ser visitado ao longo de todo o ano, mas cada período proporciona uma estadia diferente. Entre dezembro e fevereiro, além de Réveillon e Carnaval, o clima é quente e o movimento intenso. De março a maio, o destino encontra um equilíbrio interessante: menos turistas, clima favorável e preços ajustados. Já entre junho e agosto, há maior incidência de chuvas, compensada por maior tranquilidade e tarifas mais acessíveis. Entre setembro e novembro, o clima volta a se firmar, com dias mais secos, temperaturas agradáveis e um aumento gradual no movimento, tornando o período ideal para quem busca boa estrutura, paisagens exuberantes e uma experiência mais fluida, sem os excessos da alta temporada.
Como chegar
Há duas opções de transfer saindo de Salvador:
Catamarã: saída direta do Terminal Marítimo de Salvador para o píer de Morro de São Paulo, com duração aproximada de 2h30. A embarcação conta com banheiros e venda de bebidas e biscoitos a bordo.
Transfer semi-terrestre: combinação de balsa saindo do Terminal Marítimo de Salvador até o píer de Itaparica, com cerca de 40 minutos de duração; ônibus fretado de Itaparica a Valença, em um trajeto de aproximadamente 2 horas; e lancha rápida de Valença ao píer de Morro de São Paulo, com cerca de 20 minutos.
Optamos pelo semi-terrestre e, apesar do tempo prolongado, a experiência foi positiva e é recomendada aos que possuem maior sensibilidade ao balanço marítimo.
Para quem não reside em Salvador, é válido aproveitar ao menos um dia na primeira capital do Brasil, para visitar os pontos turísticos Farol da Barra, Pelourinho, Mercado Modelo, Elevador Lacerda e aproveitar uma breve pausa para um sorvete na sorveteria A Cubana. Fundada em 1930, é a primeira sorveteria da Bahia e reconhecida com a mais antiga em funcionamento contínuo no Brasil. Para muito além do quesito histórico, o sorvete é um deleite refrescante, com vista panorâmica para a deslumbrante Baía e Todos os Santos.


Tarifa de entrada na ilha
Para acessar Morro de São Paulo, é cobrada a Tarifa de Uso do Patrimônio Ambiental (TUPA), administrada pela Prefeitura Municipal de Cairu. A taxa é obrigatória por visitante e a arrecadação é destinada à manutenção ambiental das praias e à infraestrutura do Arquipélago de Cairu, do qual Morro de São Paulo faz parte.
Desde 20 de dezembro de 2025, o valor da TUPA é de R$ 70, com novo reajuste previsto para 1º de julho de 2026, quando passará a R$ 90. O pagamento pode ser feito nos totens de autoatendimento disponíveis no desembarque ou de forma antecipada pelo site TUPA Digital ou pelo aplicativo TUPA Cairu. A taxa tem validade de até 30 dias após a compra e, após o check-in no local, permite até sete dias de permanência na ilha. Crianças menores de 5 anos são isentas da cobrança e Pessoas com Deficiência (PcD) têm direito à meia entrada, mediante apresentação de laudo ou carteirinha válida.
Um convite à pausa estratégica
Em Morro de São Paulo, a ausência de carros e o ritmo ditado pelo mar criam um cenário que convida à pausa não como luxo, mas como estratégia. Entre natureza, história e dias que passam sem urgência, o destino se apresenta como um lugar onde desacelerar é também uma forma de voltar mais produtivo, mais atento e mais inteiro. Às vezes, a melhor decisão de uma viagem é permitir que o tempo trabalhe a seu favor.

